Santarém, Pará
Alter do Chão na seca e na cheia: quando ir, o que fazer e onde ficar
A Ilha do Amor só aparece na seca; a Floresta Encantada, na cheia. Quando ir a Alter do Chão, que passeios fazer em cada época e onde ficar.
Entre abril e maio de 2022, quem olhava a Ilha do Amor de cima via só os telhados de palha das barracas despontando do Tapajós. Metade delas tinha se mudado para a mata, sobre assoalhos erguidos um metro acima da água. Em outubro de 2024, o mesmo rio desceu tanto que as catraias ficaram paradas e as pessoas atravessavam a pé até a ilha.
Quem manda em Alter do Chão, distrito de Santarém, no oeste do Pará, é o rio. A praia de areia branca que aparece nas fotos existe só uma parte do ano. Na outra, a floresta entra na água e o passeio vira canoa entre copas de árvore. Qual das duas você encontra depende do mês da viagem.
Quando ir a Alter do Chão: o Tapajós mês a mês, da praia ao igapó
Em ano normal, o rio sobe a partir de janeiro e fica alto até julho; desce de agosto em diante e deixa à mostra mais de 100 km de praias. As chuvas abaixo são médias arredondadas das normais do Inmet para Santarém.
- Janeiro: transição. O rio sobe, as praias encolhem semana a semana e o igapó vai enchendo; a canoa na Floresta Encantada depende do nível.
- Fevereiro a julho, a cheia: a Ilha do Amor some, e as barracas mudam para a mata ou fecham. Em compensação, é a época da Floresta Encantada e do Canal do Jari navegável até o fim. Março e abril são os meses mais chuvosos, com perto de 400 mm cada.
- Agosto: o rio já desce, os primeiros bancos de areia aparecem e as barracas voltam para a ilha. A chuva cai para uns 60 mm no mês.
- Setembro a novembro, a seca: praia em toda parte, Ponta do Cururu acessível, Çairé em setembro. É também o trimestre mais quente, com máximas médias de 32 °C a 33 °C, e o de menos chuva, de 45 a 70 mm por mês.
- Dezembro: a chuva volta, mas em ano normal ainda há praia boa até o fim do mês.
A seca de 2024, a da travessia a pé, foi recorde: em 13 de outubro, a Defesa Civil mediu o Tapajós em Santarém a 16 centímetros abaixo do zero da régua, o nível mais baixo já registrado. No Canal do Jari, barcos deram lugar a carroças e motos, e o restaurante do jardim de vitórias-régias fechou por um mês.
Bom saber
Antes de fechar passeios, veja o nível do rio nos boletins semanais do Serviço Geológico do Brasil para a bacia do Amazonas ou pergunte à hospedagem como está a ilha naquela semana.
A seca: Ilha do Amor, Serra Piroca e o pôr do sol na Ponta do Cururu
Ilha do Amor, a língua de areia em frente à vila
A Ilha do Amor é, na verdade, uma ponta de areia exposta pelo rio em frente à vila. De um lado fica o Tapajós, com a outra margem quase sumindo no horizonte; do outro, o Lago Verde, de água parada. A travessia leva poucos minutos nas catraias a remo da beira da vila; em abril de 2023, segundo o Melhores Destinos, custava R$ 5 por pessoa. Em seca forte, como a de 2024, dá para atravessar a pé. Na areia, barracas de palha servem peixe frito e cerveja.
Serra Piroca: 110 metros acima do lago
O morro arredondado que aparece atrás da ilha é a Serra Piroca (muita gente diz Serra da Piroca, e há quem escreva Piraoca). São 110 metros de altitude e 2,7 km de trilha, ida e volta, a partir do fim da Ilha do Amor. A prefeitura recomenda ir com guia local, mas a trilha é bem marcada, e muita gente sobe sozinha em menos de uma hora. A parte puxada é a subida final, íngreme e com trechos sem sombra: vá cedo ou no fim da tarde, com água. Lá de cima se vê a vila, a ponta de areia, o Lago Verde e o Tapajós.
Ponta do Cururu, o fim de tarde com botos
Os passeios de barco do dia costumam terminar na Ponta do Cururu, uma faixa estreita de areia no meio do rio que só aparece com o Tapajós no mais baixo. Não há barraca nem sombra: leve água e lanche. Segundo a Lonely Planet, na maioria das tardes botos cor-de-rosa e cinzas se juntam perto da ponta para comer. Garantia, ninguém dá.
Quem não quer passar o dia na água pode fechar só o fim de tarde com a associação de barqueiros da vila; o preço por pessoa cai conforme a lancha enche.
A própria ponta foi parar num leilão. Em maio de 2026, segundo o Diário do Pará, a área, registrada em nome de uma associação carioca, ia a pregão com lance inicial de R$ 60 milhões. O leilão foi suspenso depois de uma recomendação do Ministério Público Federal e do estadual, que querem saber se o título tem origem em grilagem. Para quem vai ver o pôr do sol, nada mudou até agora.
Rio Arapiuns, o dia inteiro de lancha
A lancha atravessa o Tapajós, pegando trechos de onda que o Melhores Destinos compara a uma montanha-russa, e sobe o Arapiuns, afluente que corre dentro da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns. A cerca de 1h30 de Alter está a razão do passeio: a Praia da Ponta Grande, uma língua de areia com água dos dois lados. No caminho há praias quase vazias, como Icuxi e Ponta do Toronó.
O almoço costuma ser em Coroca, vila ribeirinha com turismo de base comunitária: meliponário de abelhas sem ferrão, trilhas e o Lago das Tartarugas, onde dá para participar da soltura de quelônios. Na volta, muitas lanchas param na Ponta do Cururu para o fim de tarde.
Bom saber
A lancha cobra por barco, e o preço por pessoa cai com o grupo. Em abril de 2023, o Melhores Destinos listava Flona, Jari ou Arapiuns a R$ 500 para quem ia sozinho, R$ 300 por pessoa em dupla e R$ 210 por pessoa com sete a bordo. Confira o valor atual com a associação de barqueiros.
A cheia: Floresta Encantada, Canal do Jari e as preguiças
Lago Verde e Floresta Encantada, de canoa sem motor
Atrás da Ilha do Amor, o Lago Verde se espalha por um igapó, a mata que fica alagada de janeiro a julho. A parte mais fechada, no Caranazal, é chamada de Floresta Encantada. Na cheia, uma lancha leva até a entrada e dali se segue em canoa a remo, por canais estreitos, na altura da copa das árvores. Na seca, o Lago Verde vira programa de caiaque, em água parada.
Canal do Jari: vitórias-régias, preguiças e o encontro das águas
O Canal do Jari fica do outro lado do Tapajós, na várzea do Amazonas, entre palafitas, vitórias-régias, preguiças, jacarés e aves. Na cheia, a lancha vai até o fim. Na seca, ela para no meio do caminho, os passageiros trocam para um barco menor e terminam a pé, no barro.
No Alto Jari, a chef Dulce Oliveira mantém um jardim de vitórias-régias com degustação de pratos feitos com a planta. Em fevereiro de 2026, segundo o Portal Amazônia, a visita custava R$ 40, de terça a sábado, das 10h às 14h. O jardim ainda estava em replantio depois da seca de 2024: pergunte como ele está antes de ir.
Na comunidade Jari do Socorro, a Trilha das Preguiças se faz de canoa entre árvores alagadas de março a julho e a pé na seca. Pela mesma reportagem, custava R$ 30 por pessoa.
No caminho fica o encontro das águas, em frente a Santarém: o Tapajós, esverdeado, corre ao lado do Amazonas, barrento, sem se misturar. A linha fica mais nítida com o rio baixo.
Floresta Nacional do Tapajós: trilha com quem mora lá
A Floresta Nacional do Tapajós, a Flona, tem 530 mil hectares de mata na margem direita do rio, ao sul de Alter. Como é floresta nacional, e não parque, tem gente morando dentro: são as comunidades ribeirinhas que guiam as trilhas, servem almoço e alugam quartos.
As mais procuradas a partir de Alter são Jamaraquá e Maguari, a cerca de uma hora de lancha, num passeio que sai às 9h e volta ao pôr do sol. Em julho de 2026, segundo O Liberal, as trilhas comunitárias saíam por R$ 200 para grupos de até cinco pessoas:
- Maguari: Trilha da Vovózona, uns 14 km até uma sumaúma quase milenar, com banho de igarapé no caminho.
- Jamaraquá: Trilha do Piquiá, uns 10 km entre árvores centenárias, com banho num igarapé de água clara.
O Çairé, a festa de setembro em que os botos disputam o título
O Çairé (ou Sairé, grafia da lei e da prefeitura) tem mais de 300 anos. Pela história mais contada, indígenas da região, provavelmente borari, receberam os jesuítas com o çairé, um arco de cipó enfeitado com algodão, tecido colorido e flores, com três cruzes no centro. Hoje a festa tem procissão, ladainha e mastros buscados na praia, com uma garrafa de cachaça no alto para quem conseguir subir no último dia. A Lei 14.997, de outubro de 2024, reconheceu a Festa do Sairé como manifestação da cultura nacional.
A parte profana é o Festival dos Botos, criado em 1997 e transformado em disputa em 1999. Os grupos Boto Cor de Rosa e Boto Tucuxi encenam a lenda do boto que vira homem para seduzir as moças da beira do rio, com alegorias, torcidas e jurados, diante das arquibancadas da arena do Lago dos Botos.
Em 2026, a festa foi de 17 a 21 de setembro, e o Boto Cor de Rosa venceu por meio ponto, 477,5 a 477, o segundo título seguido.
Bom saber
O Çairé deve cair sempre na terceira semana de setembro, regra acertada em 2026 entre a prefeitura, a comunidade e os organizadores. A data de 2027 ainda não foi anunciada: confirme com a prefeitura antes de comprar passagem e reserve a hospedagem cedo.
Como chegar a Alter do Chão pelo aeroporto de Santarém
Quase todo mundo chega pelo Aeroporto Maestro Wilson Fonseca, em Santarém, em geral com conexão em Belém, Brasília ou Manaus. Desde 1º de setembro de 2026, a Azul tem um voo direto de Belo Horizonte (Confins) três vezes por semana, que pousa à 1h45.
Do aeroporto a Alter são uns 34 km pela PA-457, de 40 a 50 minutos de carro. Há táxi na saída e carro de aplicativo, que some de madrugada; quem chega no voo de Confins deve combinar o transfer com a hospedagem.
Ônibus direto não há. É preciso ir até o Shopping Rio Tapajós, em Santarém, e pegar a linha da vila, que sai mais ou menos a cada meia hora, leva uns 40 minutos e só roda de dia, segundo o Melhores Destinos. A passagem inteira custava R$ 6,10 em novembro de 2025, pela tabela da prefeitura. Carro alugado só compensa para quem fica longe do centro.
Onde ficar em Alter do Chão: na vila, no meio do mato ou em Santarém
A vila é pequena e gira em torno da igreja de Nossa Senhora da Saúde e da praia, de onde saem os barcos.
- No centro, a poucas quadras da praia: barco, catraia e jantar a pé. Na semana do Çairé, a festa passa pela porta.
- Nas ruas de terra que se afastam do centro: pousadas em terrenos grandes, com mata em volta e silêncio à noite. Em troca, ruas escuras, poeira na seca, lama na cheia; sem carro ou bicicleta, cada ida ao centro vira programa.
- Nas comunidades da Flona: quartos simples, para acordar na floresta e fazer a trilha longa sem pressa.
- Em Santarém, a uns 37 km da vila: só na noite de um voo de madrugada.
Antes de ir: saque em Santarém, leve repelente e chapéu
- Dinheiro em espécie: a vila não tem agência bancária, e o único caixa 24 horas, num minimercado da rua Turiano Meira, foi desativado pela TecBan em junho de 2024. Pix e cartão funcionam na maioria das pousadas e restaurantes, mas barqueiros e barracas nem sempre aceitam cartão.
- Sinal de celular: fraco em parte das operadoras. Em novembro de 2023, o 360meridianos recomendava chip Vivo pré-pago. Pousadas e restaurantes costumam ter wi-fi.
- Mosquito: repelente e manga comprida no fim da tarde, sobretudo no igapó e nas trilhas. A vacina contra a febre amarela está no SUS; quem tem de 5 a 59 anos e nunca tomou precisa de uma dose, pelo menos dez dias antes da viagem (a partir de 60 anos, com avaliação médica).
- Sol: em outubro a máxima média passa de 32 °C, e no barco não há sombra. Chapéu e camisa de manga comprida com proteção solar.
Quantos dias em Alter: quatro, sem contar a chegada
Na seca, com quatro dias livres:
- Ilha do Amor e Serra Piroca de manhã cedo, tarde na barraca, pôr do sol na ilha.
- Flona do Tapajós, de lancha, com trilha em Jamaraquá ou Maguari.
- Rio Arapiuns, com volta pela Ponta do Cururu ao pôr do sol (ou Canal do Jari e encontro das águas).
- Lago Verde de caiaque de manhã e a tarde sem programa na vila.
Na cheia, troque a Ilha do Amor e a Ponta do Cururu pela Floresta Encantada e pela Trilha das Preguiças. O Rio Negro tem o mesmo sobe e desce: veja Manaus e Anavilhanas em 5 dias.
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