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Pantanal Norte, Mato Grosso

Transpantaneira em 5 dias: o Pantanal de Poconé até as onças de Porto Jofre

Roteiro de 5 dias no Pantanal Norte pela Transpantaneira: quando ir para ver onça, como encarar os 147 km da estrada e onde dormir em cada trecho.

Foto: Bernard DUPONT from FRANCE · CC BY-SA 2.0

A Transpantaneira termina na beira do Rio Cuiabá, em Porto Jofre, onde não há mais estrada para seguir. O plano, nos anos 1970, era chegar a Corumbá; a obra parou ali, 147 km depois de Poconé, vencida pelo terreno alagado e pelas objeções ambientais. Sobrou uma estrada de terra elevada que vai de ponte em ponte entre campos, corixos e baías, e funciona como uma linha de observação de bicho do primeiro ao último quilômetro.

Em cinco dias, dá para descer a estrada devagar, dormir no meio do caminho e terminar com duas noites em Porto Jofre, onde estão os barcos das onças. É para quem aceita acordar por volta das 5h quase todos os dias e passar horas sentado num barco olhando margem de rio.

Antes de reservar: época, carro e estrada

Quando ir: a seca é a temporada da onça

No Pantanal Norte, chove sobretudo de novembro a março; a água sobe com atraso, fica alta até março ou abril e baixa de abril a junho.

  • Seca (julho a outubro): a temporada da onça. Com a água baixa, os bichos se concentram nos rios e nas poças que sobram, e as onças caçam jacaré e capivara nas margens do Cuiabá e dos rios vizinhos. A estrada fica firme. O preço: calor que passa dos 40 °C em setembro e outubro, poeira e fogo.
  • Vazante (abril a junho): campos ainda verdes, muita ave, menos gente, temperatura agradável. As onças já aparecem, com menos regularidade.
  • Cheia (novembro a março): o Pantanal fica com cara de mar raso, bonito do alto e difícil no chão. A estrada fica escorregadia e lenta, e o trecho depois do Pixaim pode piorar bastante. Os barcos de onça de Porto Jofre trabalham sobretudo de junho a outubro; na cheia, hospedagens do fim da estrada podem fechar ou reduzir a operação. Nesses meses, troque Porto Jofre por duas ou três noites na primeira metade da estrada.

Se a prioridade é a onça, vá entre julho e outubro, de preferência em agosto ou setembro. Para aves, o fim da seca também rende mais, porque tudo se junta em volta da pouca água que resta.

Bom saber

A seca é também a temporada de fogo. Em 2020, um incêndio queimou cerca de 85% do Parque Estadual Encontro das Águas, e o fogo voltou com força ao Pantanal em 2024. Acompanhe as notícias antes de ir.

Tuiuiú caçando no capim, na beira da TranspantaneiraFoto: Bernard DUPONT · CC BY-SA 2.0

De carro ou com guia (e o meio-termo)

Dirigir sozinho funciona bem na seca e dá liberdade para parar a cada tuiuiú. Carro de passeio dá conta; um modelo mais alto ajuda nas cabeceiras de ponte. Leia o contrato da locadora, porque algumas restringem estrada de terra.

O pacote com guia (geralmente com transfer de Cuiabá, hospedagem e barcos) custa mais e tem duas vantagens sobre o carro: alguém que identifica ave pelo canto e sabe onde cada bicho costuma estar, e a logística dos barcos de Porto Jofre resolvida. Para quem quer foto de onça e lista longa de aves, compensa. Uma solução intermediária: ir de carro e contratar os barcos de Porto Jofre junto com a hospedagem de lá.

A estrada: 147 km, pontes de madeira e nenhum posto

Pelas contas da Secretaria de Infraestrutura de Mato Grosso (Sinfra), quase tudo é de terra entre Poconé e Porto Jofre. O asfalto acaba pouco depois da cidade; o portal fica perto do km 17, e a região do Rio Pixaim, mais ou menos no meio do caminho, entre os km 65 e 70.

Em 2020, a Sinfra contava 120 pontes, 83 delas de madeira. Pelo balanço de 2024, pelo menos 36 tinham sido trocadas por concreto, e a meta anunciada naquele ano era acabar com as de madeira até o fim de 2026. Na prática, conte com tábuas soltas e cabeceiras com degrau.

Uma das pontes de madeira mais longas da estrada, em 2016Foto: Bernard DUPONT from FRANCE · CC BY-SA 2.0

Bom saber

Não há posto na estrada; em Porto Jofre, às vezes há combustível à venda, caro e incerto. Abasteça em Poconé para ir e voltar, leve dinheiro em espécie e conte com ficar sem sinal de celular na maior parte do caminho.

Sem parar, a ida inteira leva algo como quatro horas; parando para bicho, vira o dia. Evite dirigir à noite: há bicho na pista e as pontes não têm iluminação.

Dia 1: peixe em Cuiabá e o primeiro fim de tarde no portal

O Aeroporto Internacional Marechal Rondon fica em Várzea Grande, colado em Cuiabá, e recebe voos diretos de São Paulo, Brasília e outras capitais. Com voo que pouse até as 11h, pegue o carro, almoce na cidade e saia para Poconé lá pelas 13h30: são cerca de 100 km de asfalto pela MT-060, coisa de uma hora e meia.

Almoço em Cuiabá. É a hora de comer peixe de rio do jeito cuiabano: ventrecha de pacu frita (a costela do peixe, crocante), mojica de pintado (um cozido com mandioca), farofa de banana e maria-isabel, o arroz com carne seca. As peixarias tradicionais servem tudo isso com pirão e banana frita.

15h, Poconé. No arco da entrada, a cidade se anuncia "capital do Pantanal e das tradições culturais". É a última cidade antes da terra: abasteça, saque dinheiro, compre água e frutas para o dia seguinte.

15h45, rumo ao portal. Rode devagar os 17 km até o portal de madeira com a placa "Aqui começa o Pantanal Mato-grossense" e os primeiros quilômetros depois dele: é no fim de tarde que os bichos saem do mato. Aparecem jacarés nas valas ao lado da estrada, garças, colhereiros e quase sempre algum tuiuiú. O sol se põe entre 17h20 e 17h45 de junho a outubro; volte para Poconé antes disso.

O portal no km 17, ao sul de Poconé, onde começa a Estrada Parque TranspantaneiraFoto: Bernard DUPONT from FRANCE · CC BY-SA 2.0

Bom saber

Se o voo chegar à noite, durma em Cuiabá e saia às 5h do dia seguinte. Você perde o fim de tarde do dia 1, mas chega ao portal com a luz da manhã, que é igualmente boa.

Dia 2: a primeira metade da estrada, devagar

Saída com a primeira claridade (por volta de 5h45 em julho e agosto, 5h20 em setembro e 5h em outubro). O primeiro trecho, entre Poconé e a região do Pixaim, passa por fazendas de gado com campos abertos, capões de mata e corixos. É a parte mais fácil para ver ave grande, porque a vista é aberta. Vá a 20 ou 30 km/h e pare sempre que alguém no carro gritar.

O que costuma aparecer nessas primeiras horas:

  • Tuiuiú, a ave-símbolo do Pantanal, caçando nos alagados ou nos ninhos enormes no alto das árvores secas.
  • Arara-azul-grande, em casais, nas palmeiras e árvores das sedes de fazenda. O barulho chega antes.
  • Jacarés às dezenas em cada poça que sobrou, principalmente embaixo das pontes.
  • Capivaras, cervo-do-pantanal nos campos alagados, gaviões, carcarás e martins-pescadores.
Araras-azuis-grandes numa fazenda à beira da TranspantaneiraFoto: Bernard DUPONT · CC BY-SA 2.0

10h, pousada no meio do caminho. Chegue antes do calor forte. Entre 11h e 15h, os bichos somem e você também deveria: almoço, rede, ventilador.

15h30, passeio da tarde. As pousadas da região do Pixaim costumam oferecer barco ou canoa no rio, caminhada em trilha e cavalgada. O barco no Pixaim é a melhor das três para quem quer ariranha, lontra e martim-pescador.

20h, focagem. Saída noturna com lanterna, a pé ou de carro, para ver o que se mexe depois que escurece: jacarés com olhos refletindo a luz, corujas, curiangos, às vezes cachorro-do-mato, tamanduá ou anta. Não é garantido, mas é a melhor chance de ver mamífero fora do rio.

Dia 3: a segunda metade da estrada, até ela acabar no rio

6h, estrada. Do Pixaim para o sul, as fazendas rareiam e a paisagem fica mais fechada e mais alagada. É o trecho com mais ponte e menos gente. Os bichos do dia anterior continuam aparecendo, e aumentam as chances de tamanduá-bandeira atravessando a estrada de manhã cedo.

11h, Porto Jofre. A estrada acaba no Rio Cuiabá. Dali em diante, tudo é barco. Almoce e descanse.

14h30, primeiro barco. A tarde é a segunda janela de onça do dia, depois do amanhecer. Os barcos são pequenos, de poucos passageiros; pergunte na reserva se o seu é compartilhado ou privativo. O da tarde volta perto do pôr do sol; o meio-período da manhã é o mais longo, de quatro a cinco horas. O piloteiro sobe o Cuiabá e entra nos rios menores à procura de onça deitada na margem ou bebendo água. Os barqueiros se falam por rádio: quando alguém acha uma onça, os outros vão para lá.

O rádio tem um efeito colateral. Em julho de 2026, um vídeo com dezenas de barcos cercando uma onça no Rio São Lourenço, perto de Porto Jofre, rodou o país e reabriu a discussão sobre limites para a observação.

Mato Grosso regula isso desde 2011, pela Resolução 85/2011 do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema): silêncio a bordo; nada de som, luz ou cheiro para atrair o animal; proibido alimentá-lo; barco a distância segura; no máximo 20 minutos de observação. Na água, o cumprimento depende de quem pilota.

Bom saber

Prefira o piloteiro que mantém distância, desliga o motor ao chegar e não fecha a passagem do bicho até a água. Se o seu barco fizer o contrário, peça para recuar.

Dia 4: dia inteiro nos rios das onças

6h, saída de barco. Combine um passeio de dia inteiro, com almoço a bordo ou parada rápida, em vez de dois meio-períodos: o barco não perde tempo voltando ao porto e você fica no rio nas horas em que as onças descem para a margem. A volta ao porto é com o sol baixo, por volta das 17h.

O roteiro sai pelo Cuiabá e entra nos rios do entorno: o Três Irmãos, o Piquiri e o São Lourenço. Boa parte desse território está no Parque Estadual Encontro das Águas, criado em 2004, com cerca de 109 mil hectares entre Poconé e Barão de Melgaço. A região tem uma das maiores concentrações de onça-pintada já registradas, e na seca a chance de ver pelo menos uma num dia inteiro de barco é alta, mas não garantida.

Onça atravessando um rio no Parque Estadual Encontro das ÁguasFoto: Thomas Fuhrmann · CC BY-SA 4.0

Além das onças:

  • Ariranhas, em grupos barulhentos que pescam e comem na margem. O Três Irmãos é um bom lugar para elas.
  • Jacarés e capivaras em quantidade que perde a graça depois da primeira hora.
  • Aves de rio: biguás, socós, garças, colhereiros, gaviões-belos, martins-pescadores de várias espécies.
Ariranhas no Rio Três Irmãos, um dos braços percorridos pelos barcosFoto: Charles J. Sharp · CC BY-SA 4.0

Leve chapéu de aba larga, protetor, garrafa de água grande, capa de chuva leve e um lenço para a poeira. Teleobjetiva ou binóculo fazem mais diferença do que câmera nova: as onças costumam ficar a dezenas de metros, no meio do mato da margem.

Dia 5: a volta a Cuiabá, que também é safári

Saída com a primeira claridade. É a Transpantaneira inteira de novo até Poconé, e mais uns 100 km de asfalto até o aeroporto. Com paradas curtas, conte de seis a sete horas. Você passa pelas mesmas poças em outra hora do dia, e os bichos não são os mesmos.

Bom saber

Não marque voo antes das 16h. Se der para marcar no dia seguinte, durma em Poconé ou Cuiabá e faça a volta sem pressa, com mais um barco cedo em Porto Jofre.

Vacina, roupa, reservas e plano B

  • Febre amarela: a vacina está no calendário do SUS e é gratuita. Quem tem de 5 a 59 anos e nunca tomou precisa de uma dose só, pelo menos 10 dias antes da viagem; crianças tomam aos 9 meses e reforçam aos 4 anos; acima de 60, só com avaliação médica.
  • Mosquito e carrapato: repelente sempre, mais forte no fim da tarde e na cheia. Na seca, carrapato no capim; use calça comprida nas trilhas e confira o corpo à noite.
  • Calor: em setembro e outubro, o meio-dia é perigoso. Beba água o tempo todo e respeite a pausa.
  • Roupa: cores neutras (bege, verde, cáqui), camisa de manga comprida leve, tênis fechado e um agasalho fino para a saída de barco antes do sol.

O que reservar com antecedência

  • Hospedagem em Porto Jofre e barcos, de julho a outubro. São poucas opções no fim da estrada, e elas lotam na temporada da onça.
  • Carro, se for dirigir.
  • Guia de observação de aves, se quiser um. Os bons são disputados na seca.

Plano B

  • Choveu fora de época: a terra fica escorregadia. Espere uma ou duas horas antes de seguir, porque a estrada seca rápido com sol.
  • Calor ou fogo fortes: concentre as saídas no amanhecer e no fim de tarde e dê o meio do dia como perdido.
  • O dia de barco não rendeu onça: troque a manhã do dia 5 por mais um barco cedo e saia para Cuiabá às 10h. Só funciona com voo depois das 19h.

Onde ficar na Transpantaneira, trecho por trecho

Cuiabá (chegada ou saída)

Só durma aqui se o voo chegar à noite ou sair cedo; perto do aeroporto, em Várzea Grande, você ganha meia hora na saída.

Poconé (noite 1)

Hotéis e pousadas simples, a 17 km do portal, com posto, mercado e caixa eletrônico à mão. É barato e permite chegar ao portal com a primeira luz. Contras: é cidade, não Pantanal; a noite é só para dormir.

Fazendas-pousadas no meio da estrada (noite 2)

As hospedagens da Transpantaneira são quase todas fazendas-pousadas, espalhadas pela primeira metade da estrada e pela região do Pixaim. Em geral funcionam com pensão completa, e o passeio de barco, a caminhada e a focagem entram no pacote ou são cobrados à parte. Você acorda no meio dos bichos, mas paga caro para o padrão dos quartos, e quem fica mais perto de Poconé tem mais estrada pela frente no dia 3.

Porto Jofre (noites 3 e 4)

No fim da estrada há poucas hospedagens, e a maioria trabalha junto com os barqueiros. Há também camping, a opção mais barata, com acesso aos mesmos barcos. A vantagem é estar a minutos dos rios das onças e sair no escuro; a desvantagem é a diária alta na temporada e a pouca oferta, que obriga a reservar cedo.

Com 3 ou 4 dias, ou com mais tempo

  • Quatro dias: corte a noite no meio da estrada e vá direto de Poconé a Porto Jofre no dia 2, saindo com a primeira claridade. Você mantém as duas noites no fim da estrada, que é o que importa para as onças.
  • Três dias: esqueça Porto Jofre. Durma duas noites numa fazenda-pousada da primeira metade da estrada: aves, jacarés, capivaras e, com sorte, um mamífero na focagem. Onça, provavelmente não.
  • Mais dias: acrescente uma terceira noite em Porto Jofre. Cada dia a mais no barco aumenta a chance de ver onça caçando, e não só descansando.
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Onça-pintada macho caminhando na margem de terra do Rio Cuiabá, perto de Porto Jofre

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